segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Deus Não Está Morto

segunda-feira, 5 de setembro de 2016


Título original: God's Not Dead
Ano: 2014
Direção: Harold Cronk
Roteiro: Hunter Dennis, Chuck Konzelman, CarySolomon
Gênero: Drama
Origem: Estados Unidos
Duração: 113 minutos
 


Uma noite de domingo, 21/09/2014, foi quando tive a oportunidade de assistir ao longa “Deus Não Está Morto” (God's Not Dead, 2014), o qual, apenas pelo trailer, já me havia causado um misto de curiosidade e certo incômodo, impulsionando-me, naturalmente, a assisti-lo. Foi um filme muito comentado naquele ano e aclamado por uma parcela substancial de religiosos, sobretudo católicos e evangélicos/protestantes (sempre fico em dúvida quanto ao termo correto a utilizar). Foi naquela mesma época, quando 2014 já se despedia, que comecei a pôr no papel – ou, melhor dizendo, na página do Microsoft Word – algumas ideias sobre a obra de Harold Cronk, que, quase dois anos depois, viria a dirigir uma continuação para o filme. Não obstante, considerando o fato de que tanta gente realmente competente já havia resenhado a obra, me pareceu desnecessário fazê-lo também, certo que eu estava de não ter muito a acrescentar. Soma-se a isso a consciência que eu tinha de que, ao fazê-lo, ser-me-ia inevitável tocar em questões delicadas no tocante à religiosidade, à crença, à diversidade e afins. Assim, optei, à época, por guardar comigo as minhas reflexões sobre o longa, adotando a famigerada “política da boa vizinhança” e evitando atritos nas redes sociais, sempre repletas de usuários pré-dispostos à atuação jurisdicional. Com isso posto, se me decido por fazê-lo agora – quando dois anos já se passaram e até uma segunda parte do filme já saiu de cartaz –, faço-o em virtude da toda a discussão que assisti, em âmbito político (infelizmente) acerca de questões religiosas, liberdades individuais, bem como de direito à crença e à não-crença. Ademais, de 2014 para cá, muito eu soube de intolerância religiosa, de vozes que se levantaram contra a reprodução da Paixão de Cristo por uma transexual durante a XIX Parada do Orgulho LGBT de São Paulo*, mas se mantiveram caladas diante de ataques a terreiros de umbanda e afins.

Desde já, vale afirmar que o filme em si, lamentavelmente, frustrou as minhas expectativas positivas e superou as más, configurando-se, para mim, como nada mais que a expressão dos ideais de um ainda esmagador número de indivíduos conservadores, preconceituosos e intolerantes. Não obstante, é justamente a você, que é adepto de uma religião cristã e curtiu o filme em pauta, que convido a prosseguir com a leitura desta crítica, redigida por um cara também simpatizante do cristianismo e defensor ferrenho da liberdade religiosa. Confie em mim...

“Deus Não Está Morto” tem a sua trama embasada em uma situação que, embora improvável**, é até digerível, visto que a minha experiência pessoal me certifica da existência de professores de fato capazes de absurdos semelhantes aos cometidos pelo professor Radisson (Kevin Sorbo), que, devido a sua intolerância e ideologias, resolve perder tempo pirraçando o calouro Josh Wheaton (Shane Harper) por causa de sua fé cristã. E esse, aluno inteligente e, a princípio, aparentemente firme em sua fé cristã, se propõe também a perder o seu tempo pirraçando o professor em lugar de simplesmente abandonar a disciplina, trancar a matrícula ou, como seria mais acertado, recorrer à direção da Universidade a fim de registrar uma queixa contra a abusiva e expressa intolerância religiosa do professor.

Ok, eu concordo com o personagem em não negar a sua fé pela simples imposição de um professor psicopata, mas será possível que não havia a possibilidade buscar uma solução para o caso recorrendo-se a esferas superiores daquele contexto acadêmico? Seria essa universidade assim tão displicente? Ou será que o embate estabelecido entre aluno e professor revela nada mais que a incerteza de um quanto a sua fé e a incerteza de outro quanto ao seu ateísmo? Ora, se há uma convicção pessoal firme, como se justifica a obstinação por contestar o outro? Incerteza? Vaidade? Ou seja: em uma breve explanação, já temos posta a premissa inverossímil do longa, no que vale não ignorarmos o fato de que estamos tratando de uma obra ficcional, na qual, logo, tal premissa se torna aceitável e até necessária à criação do embate entre os protagonistas, sem o qual nem sequer existiria o filme.

Então, no contexto da trama, não é difícil chegar à conclusão de que, entre Josh e Radisson, é esse último o mais errado naquela relação, uma vez que abusa de sua autoridade docente ao tentar impor o seu ateísmo no contexto de uma universidade não eclesial (a, acho, fictícia Hadleigh University) e de um Estado laico. Em lugar de auxiliar os discentes na construção do conhecimento, promovendo o questionamento (natural no contexto acadêmico) e a oportunidade de reverem as suas escolhas, o professor Radisson determina a declaração de que “Deus está morto” como condição para que se evolua em sua disciplina. A esta altura, o filme apresenta ao telespectador o herói/oprimido e o vilão/opressor, aprofundando-se, em seguida, em tramas secundárias protagonizadas por personagens que, tal como Josh, se encontram na condição de oprimidos em sua relação com outrem. A saber: a bela Ayisha (Hadeel Sittu), que, desejosa de viver o cristianismo, vive em um mundo à parte em virtude da tradição muçulmana imposta por seu pai Misrab (Marco Khan); o oriental Martin Yip (Paul Kwo), que, ao decidir “aceitar Jesus” graças ao testemunho de Josh, se vê às voltas com a desaprovação do seu pai, que vive na China (país onde 47% dos habitantes de declaram ateus, levando-o a ser considerado o país mais ateu do mundo); e Mina (Cory Oliver), cristã e esposa, justamente, do professor Radisson, de quem é ex-aluna. Todavia, além de lidar com o ateísmo crasso no marido, Mina lida ainda com o irmão Mark (Dean Cain***), capitalista insensível que dá as costas à namorada Amy Ryan (Trisha LaFache), quando essa se descobre com câncer.

Relendo o parágrafo acima, você perceberá, desenhado nas entrelinhas, o grave problema do filme: todos os personagens (Radisson, Misrab, o pai de Martin e Mark) que fazem oposição aos cristãos (Josh, Ayisha, Martin, Mina e Amy) são sujeitos tiranos, malvados e insensíveis. São visivelmente os vilões da trama, e não indivíduos que, simplesmente, têm pensamento contrário ao cristianismo. Muito embora, vez e outra, o filme mencione o livre-arbítrio – inclusive utilizado como justificativa por Josh, quando, em uma de suas palestras para a classe, afirma que só deseja que os seus colegas escolham por eles próprios e não por imposição de um professor –, o mesmo, a todo o tempo, vilaniza os personagens não cristãos. E, assim, temos um pai que agride e prende a filha ao descobrir a sua fé em Jesus; um pai que ignora as convicções do filho; um namorado que despreza a namorada quando essa se vê às voltas com uma doença não raro sinônimo de morte e despreza a mãe idosa e demente; um homem que, além de perseguir um discente cristão pelos corredores da universidade, ainda leva o seu ateísmo ao ponto de prejudicar a sua relação com a esposa cristã, a quem humilha durante um jantar em uma sequência absurda! E, claro, todos eles ateus e, portanto, de acordo com a mensagem do filme, vilões, malvados e opressores... Ora, se, na visão do filme, a opção por não ser cristão pressupõe tais adjetivos, é natural chegar à conclusão de que, ainda de acordo com o longa, os cristãos são bons e perfectíveis. Mas seria isso uma realidade na vida fora do longa?

Neste ponto, vale deixar bem claro aqui que, em momento algum, afirmo ser um problema os cristãos serem contrários ao pensamento muçulmano, hinduísta, umbandista, ateu etc. Isso, definitivamente, não é problema algum. Até porque estamos falando de um filme voltado para o público cristão e, diga-se de passagem, produzido pela Pure Flix, empresa de produção da indústria cinematográfica cristã. Logo, o problema aqui de maneira alguma é o fato de o filme promover os ideais cristãos, mas, sim, a forma como decide fazê-lo, conspurcando não apenas as crenças contrárias ao cristianismo, mas as próprias pessoas que, por cultura, tradição, criação ou opção, não são cristãs. Dessa forma, um filme que se propõe a pregar o Deus Vivo nada faz além de endossar o preconceito e a intolerância.

Confesso que, ao longo do filme, eu torcia não pela conversão do tirano professor, mas, sim, pela retratação do mesmo, bem como por um entendimento entre ele e o estudante Josh. Mas, em um filme onde os nãos cristãos são todos vilões, qual seria o provável final do maior vilão de todos, o temível professor Radisson? A morte, naturalmente. Em uma sequência na qual Radisson segue em direção ao show do grupo gospel de pop rock Newsboys na esperança de reatar os laços com Amy, que o havia abandonado, o mesmo é atropelado, convertendo-se enquanto agonizava. A mensagem, naturalmente, é muito clara: não há entendimento entre cristãos e ateus, e Deus segue punindo impiedosamente quem não crê Nele.

Em interação com alguns amigos, já tentaram me convencer de que tal desfecho objetiva, na verdade, mostrar que a piedade de Deus é tamanha que, mesmo após uma vida de erros e de negação a Sua Palavra, todos são dignos de Sua infinita misericórdia. Seria uma mensagem bonita, se fosse uma realidade no contexto de “Deus Não Está Morto”, cujo conjunto da obra não permite tal interpretação. A mim pareceu apenas um final muito cruel, no qual uma multidão está feliz em um show gospel enquanto, lá fora, em meio a chuva, um cara perde a vida justamente no momento em que ia começar a acertar. Deus é misericordioso, mas o filme não, e, em meio a tantos desfechos possíveis – como uma mudança de postura por parte do professor ou mesmo uma vida solitária em virtude de sua natureza ranzinza –, opta pela solução típica de folhetins ou de filmes comuns/não cristãos, nos quais o vilão, merecidamente, sempre morre no final.

Mas o longa tem alguns (poucos) pontos fortes, os quais se resumem às três palestras ministradas por Josh, bem como a alguns diálogos, tais como o diálogo entre o Reverendo Dave (David A.R. White) e Mina, e a relação entre Dave e o Reverendo Jude (Benjamin Ochieng), que vive a instruir o amigo quanto à fé e aos desígnios de Deus. No mais, porém, o telespectador é obrigado a lidar com a péssima e desnecessária atuação de Willie e Korie Robertson, que, ao interpretarem eles próprios, cedem uma entrevista à jovem Amy. Trata-se de uma sequência um tanto polêmica, visto que a jovem questiona o casal quanto à contradição entre orarem a Jesus em todos os episódios do seu programa de tevê e, ao mesmo tempo, terem um negócio contrário à fauna. A sequência, no entanto, deixa claro que é o casal que está correto, enquanto a jornalista não passa de uma jovem rebelde e contrária a Deus. Ora, caçar patos em nome de Jesus pode. Questionar a incoerência disso é preconceito e intolerância contra os cristãos. Sério...? Mais ao final do longa, a mesma Amy, agora diagnosticada com um câncer, interage com os integrantes do grupo Newsboys, momento no qual parece se evidenciar a sua conversão... Afinal, a doença e a morte costumam conduzir à conversão. Resta saber quanto à legitimidade de tal conversão... Vale ressaltar que, enquanto humano que sou, eu também recorro a Deus em momentos de necessidade, comumente esquecendo-o em momentos nos quais sinto estar bem. O problema aqui não é esse, mas, sim, o fato de o filme aparentemente legitimar uma fé ocasionada pelo medo da morte. Ademais, ateus não se veem perdidos diante de seu sofrimento. Onde não há o refúgio da fé (que, sem dúvida, é algo consideravelmente positivo), há o refúgio da família, dos amigos, do desejo de viver, dos planos para o futuro etc.

Bom, eis a minha opinião sobre o longa, que me assustou não devido a alguma resistência pessoal que eu tenha à religiosidade ou ao cristianismo em si, mas, sim, pela forma como um filme que se auto intitula cristão opta por conduzir as suas tramas, promovendo a intolerância e reforçando estereótipos. Sem sombra de dúvida, Deus não está morto. Não obstante, a minha esperança em um mundo mais tolerante e com menos guerras de cunho religioso, certamente, quase morreu quando assisti a esse filme.

***

*A menção a tal episódio não necessariamente revela uma aprovação da minha parte à performance da modelo transexual, sobre o que espero poder escrever em outra ocasião. O que faço aqui é apenas questionar a indignação seletiva de alguns religiosos. Se Cristo pregou a paz e a solidariedade e se, diante da performance da moça, cristãos se sentiram pessoalmente ofendidos, esperava-se que, baseados nos ensinamentos de Jesus, eles também de levantassem contra à intolerância às demais religiões, estou errado?

**Ao final do filme, antes da apresentação do cast, nos é exibida a mensagem: “O filme ‘Deus Não Está Morto’ foi inspirado nos seguintes processos jurídicos entre universitários e processos universitários que foram condenados por causa da fé”. Não obstante, não pesquisei mais a fundo a fim de conhecer as situações que supostamente chegaram aos tribunais e levaram à produção do longa.

***Muito conhecido no Brasil pelo seu personagem Clark Kent/Superman no seriado Lois & Clark: The New Adventures of Superman. Em 09/11/2010, o ator esteve no Programa do Jô em virtude do lançamento do filme “Amor por Acaso”, no qual foi par romântico de Juliana Paes.

***

Publicado originalmente em CinePlayers.

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